Um mundo melhor, para todos e para sempre

Comportamento verde – a etiqueta do século XXI, com as debatedoras Lígia Krás (analista de tendências da Mindset/WGSN), Marussia Whately (arquiteta e ambientalista) e Beth Furtado (psicóloga, sócia da Alia Consultoria e Marketing), foi o tema  do painel de hoje (14), da série de encontros sobre meio ambiente promovidos pelo Estadão.

A frase do título é uma fala da Marussia, uma definição bem simples e eficaz do conceito de sustentabilidade. A definição original, do Ignacy Sachs é “usar os recursos naturais de forma a prover as gerações atuais sem comprometer a existência das gerações futuras”.

Seja na definição técnica, seja na definição simplificada, precisamos admitir: apesar de muito se falar no assunto, o conceito de sustentabilidade não está naturalizado no dia a dia das pessoas. Já existe a noção e a preocupação com o tema – um bom começo – mas quando passamos para o plano das ações, ainda há poucos resultados.

Uma informação da Lígia Krás na palestra chamou a atenção: o jovem brasileiro nem sempre está preocupado com sustentabilidade, segundo uma pesquisa realizada pela Mindset/WGSN. Faz sentido: ele tem outras prioridades, precisa conseguir educação, trabalho, teme a criminalidade e pensa em outros temas mais próximos dos seus anseios e necessidades.

Onde está a saída? Na educação e na mídia ao pautar esses temas, mas principalmente nas mulheres. A partir delas muitos comportamentos sustentáveis e mesmo questionamentos sobre consumo consciente se disseminam para os maridos e os filhos.

Lígia citou alguns exemplos concretos: é mais sustentável usar fralda de pano ou descartável? Lembre que é preciso pesar a produção da fralda descartável versus os recursos usados para lavar a fralda de pano. E o que fazer para substituir a sacola plástica que forrava a lixeira? O saco de lixo só serve se for feito de material reciclado, certo?

São dilemas enfrentados por quem acredita nas pequenas atitudes como impulsionadores de grandes mudanças. Lígia disse que é necessária uma “mudança cultural” para que tenhamos uma vida mais sustentável.

Nesse ponto começa a minha discordância com alguns pontos de vista das debatedoras. Pequenas atitudes são importantes, mas relembrando Marx, “as condições materiais é que constituem o pensamento de uma sociedade”. Não se escapa da Economia e da Política ao falar de sustentabilidade.

Como bem lembrou a Beth Furtado, o Governo (e aqui uso esta palavra em sentido amplo), deve ser o motor de políticas para um modelo de desenvolvimento focado em outros parâmetros além do crescimento econômico.

Mas não será fácil enfrentar o poderio das grandes corporações e o modo como a Economia é planejada. Basta pensar em como o Governo enfrentou a recessão mundial de 2009: zerando os impostos de eletrodomésticos e dos carros. Será essa a melhor solução para uma São Paulo cujo trânsito já é infernal?

O relatório “Estado do Mundo”, publicado no Brasil pelo Instituto Akatu, mostra que a população mundial cresceu 10% nos últimos 10 anos; o consumo, cresceu 28%. O que aconteceria com o mundo se a população chinesa tivesse o padrão de consumo da sociedade americana? Fica claro que a solução para os problemas ambientais e da mudança climática passa pela revisão da nossa maneira de consumir e produzir os bens de uso cotidiano.

No entanto, é necessário fazer algumas ponderações. No Brasil e em muitos outros países em desenvolvimento, foi somente na virada doséculo XXI que as classes C e D tiveram acesso a bens de consumo e mesmo à uma alimentação melhor. “O povo agora está comendo frango” foi um dos motes do Plano Real, lembra?

Para se ter noção das dificuldades de inserção sócio-econômica mesmo no mundo atual, basta lembrar que 2,5 bilhões de pessoas – um terço da humanidade – ainda não tem acesso a saneamento básico adequado. Como então, dizer a essas pessoas que “elas não devem consumir”?

É impossível esgotar tantas discussões num único post. Mas deixo dois pontos fundamentais para a resolução desses problemas: o primeiro é a eficiência no uso dos recursos: revolta pensar que 40% das água obtida nos mananciais se perde antes de chegar à casa das pessoas.

O segundo se relaciona com a conectividade e uso crescente de tecnologia na nossa sociedade. Acredito na Internet como um vetor de mobilização. Antes, para discutir esses temas e implementar soluções, dependíamos das ONGs. Hoje, qualquer pessoa com conhecimento sobre o assunto cria um blog e um twitter e mobiliza pessoas ao seu redor.

A série Encontros Estadão & Cultura promove três debates sobre temas relacionados ao meio ambiente na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Organizados pela equipe do caderno Planeta, os encontros acontecem nos dias 14, 15 e 16 – sempre às 12h30. Cobrirei também os outros dois encontros e posto para vocês.

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5 Comentários

  1. oliver
    Publicado 14 de julho de 2010 em 21:06 | Permalink

    Pois é.

    Vou usar um exemplo: as sacolas de supermercado.

    Queriam que a gente trocasse por outras, ecológicas.

    Claro, teríamos que PAGAR.

    Muitos até aceitam fazer esta parte.

    Mas e as centenas de EMBALAGENS igualmente poluidoras que levamos nas sacolas ???

    Delas nunca se falou.

    Lembro quando a Luiza Erundina, em São Paulo, propôs uma solução simples para a água:

    as empresas teriam, APENAS, que INVERTER OS CANOS.

    Passariam a despejar os dejetos ACIMA do cano de captação.

    Se despejassem água suja, captariam …….

    CLARO QUE NÃO PASSOU.

    O problema não é o povo.

    O problema são as empresas, é o CAPITAL

    Mas as coisas irão se ajustar.

    Irão porque, já este ano, está previsto a MAIS TERRÍVEL época de tufões, furações e maremotos no caribe e eua.

    A cias. de seguro já estão, inclusive, fazendo algumas reservas.

    Quando isto começar a “incomodar o bolso”, a coisa se ajusta.

    E o planeta poderá, enfim,

    RESPIRAR.

  2. Publicado 14 de julho de 2010 em 22:20 | Permalink

    Charles, creio que vocês estão com toda a razão, especialmente quando apontam a necessidade de pensamento sobre quais os impactos de uso de determinados produtos ou não. Concordo que o uso de sacolas plásticas em supermercado é um crime contra a humanidade e a vida na Terra. AS embalagens dos alimentos, especialmente no período de páscoa, com aquelas embalagens brilhantes, enormes, cheia de adereços inúteis dos ovos de páscoa são o absurdo dos absurdos! Há de se mudar as políticas destas culturas de comércio. Porque não inventarmos algo do gênero “cidade limpa” e reduzirmos drasticamente as embalagens de TODOS os produtos, como se faz na Europa, notoriamente na Inglaterra, Alemanha e Holanda.

    Por exemplo, recentemente o Comfort está se tornando concentrado, que ocupado menos espaço para armazenar, menor quantidade de água para produção, redução de custos de transporte, logística e até mesmo a redução do uso de embalagens plásticas, pois poderão ser repostas por refis, que utilizam bem menos petróleo que as emabalagens de 2 litros. Acho que as empresas estão começando a perceber essa tendência. Quantos produtos não podem ter este modelo? Perfumes já o são, sabão em pó poderiam, detergentes, enfim, todos os produtos sinteticamente elaborados pelo ser humano!

    Além disso, discordo do assinante acima. Creio que ainda falta informação, consciência e respeito ao meio ambiente pela população. Vários exemplos de fracasso de lançamentos de produtos na década de 90 e anos 2000 no Brasil são fruto destes fatores sócio-culturais. O produto era testado ecologicamente, dermatologicamente, era testado até pela NASA, pesquisas de marketing apontando 80% (não lembro ao certo, mas era próximo dissso a porcentagem) de aprovação da população ao produto e quando chegou na prateleira, adivinhem? Por ser 10 centavos mais caro que o produto ecologicamente pior era comprado, continuando o ciclo daquele que não era biodegradável, com cheiro fortíssimo de cloro, benzeno e outros materiais tóxicos e nocivos a vida na terra, com cores fortes, que faziam espumas para fazer uma festa da espuma em casa. (Alguém lembrou de um desinfetante de banheiro? Desengordurante de cozinha??…)
    Isso apenas mostra que ainda temos um déficit que conduz a escolhas preconceituosas (falta de informação) e erradas (do ponto de vista teórico na questão ambiental em que vivemos). Ainda temos de informar, educar, conscientizar e fazer valer as excelentes regulamentações brasileiras, que não são fiscalizadas com o vigor necessário.

    É isso!

    Se puder visitar meu blog, agradeço! http://www.ricardomatheus.blogspot.com

    Grande abraço e parabéns pelo blog!

  3. Publicado 14 de julho de 2010 em 23:48 | Permalink

    Primeira coisa: educação para a sustentabilidade. Assim como o Brasil comete a burrice de não ensinar empreendedorismo nas escolas, fica atrasado em relação aos países desenvolvidos por não ensinar a sustentabilidade desde cedo.

    Segunda coisa: bom senso. Não preciso deixar de comer carne, de ter lazer, conforto e prazer para ser sustentável. Mas também não preciso sair comprando por impulso ou porque está barato. É substituir o que quero pelo o que eu preciso. Se precisar, compra, se apenas quiser, ignora. O bolso, até, vai agradecer. Fazer aquele basicão, de apenas fechar a torneira quando estiver escovando os dentes ou apagar a luz quando sair da sala já ajuda bastante.

    Terceiro: qualquer governo sempre vai pensar em curto prazo porque essa é a lógica da política brasileira. O que dá mais voto: tirar IPI dos carros ou dar beneficío às empresas que produzem produtos ecoeficientes?

  4. Belasco
    Publicado 15 de julho de 2010 em 1:40 | Permalink

    Eu tenho bronca desde algum tempo de iniciativas que empurram para a ponta a responsabilidade pela externalizacao de custos ambientais.
    Me ofende ter que sentir mal por não separar o lixo que me vendem de forma casada e ilegal de embalagens.
    Acho que só com regulação estatal séria e comprometida temos chance de reverter esse processo de consumo maluco.

    Beleza de blog.
    Meus parabéns amigo Charles.

  5. Publicado 29 de novembro de 2010 em 19:55 | Permalink

    Eu tenho bronca desde algum tempo de iniciativas que empurram para a ponta a responsabilidade pela externalizacao de custos ambientais.
    Me ofende ter que sentir mal por não separar o lixo que me vendem de forma casada e ilegal de embalagens.
    Acho que só com regulação estatal séria e comprometida temos chance de reverter esse processo de consumo maluco.

    Beleza de blog.
    Meus parabéns amigo Charles.

Um Trackback

  1. Por Coisas fora do lugar em 15 de julho de 2010 às 18:24

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